1 de abril de 2013

Quando as realidades se misturam

O país está em crise. Isso não é novidade para ninguém. Todos os dias nos entram em casa histórias de pessoas desempregadas e com dificuldades. Já nem precisamos ver os noticiários para ficarmos a conhecer estas realidades. Elas estão agora por todo o lado. É a nossa vizinha, aquela colega de facebook, um casal amigo, alguém que conhecemos através de um blogue... As descrições exaustivas de pessoas que vivem dificuldades multiplicam-se de dia para dia. 

Aquilo que eu noto, e de que poucos falam, é que as histórias de vítimas da crise acabam muitas vezes por se misturar. Se por um lado, existem pessoas que realmente são vítimas desta realidade, por outro, há os que se designam economicamente entalados pela Troika, quando na verdade, talvez não seja bem assim. Actualmente, há uma confusão de alguns hábitos e conceitos que coloca toda a gente no mesmo patamar, os de vítimas da crise. Talvez se der um exemplo me consiga fazer entender melhor. Um casal que trabalha numa empresa que, de repente, fecha as portas e que se vê obrigado a entregar a casa ao banco, é vítima indiscutível da crise. Por outro lado, um casal que já tendo o empréstimo da casa decide fazer mais empréstimos, para decorar, alterar e não sei mais o quê, se calhar, está a pôr-se a jeito. Outro dia ouvia a história de um casal que tem 50 mil euros de dívidas em crédito ao consumo e pensei: serão vítimas da crise, como dizem ser, ou simplesmente vítimas da sua própria má gestão? Casos como este multiplicam-se. Pessoas que já vivendo algumas dificuldades no dia a dia, decidem ter mais filhos ou quiçá trocar de carro. Serão verdadeiras vítimas da crise como se auto-denominam? 

Antes de falarmos em crise - que existe e pela qual muitos sofrem, não nego isso - talvez precisemos falar de uma mudança cultural obrigatória e de algum investimento na aprendizagem da gestão do orçamento familiar.  Durante anos o crédito foi facilitado e os portugueses adquiriram hábitos que hoje em dia confundem com necessidades. A mim pessoalmente, custa-me ver pessoas que abrem páginas de facebook a pedir ajuda e donativos, não por serem vitimas da crise ou de um qualquer infortúnio de saúde, mas sim porque alimentaram hábitos e comportamentos de viver acima das possibilidades. E assim se vão misturando as realidades. Às tantas já não conseguimos distinguir aqueles que realmente precisam, dos outros.
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11 comentários

  1. Concordo contigo, aliás já me irrita solenemente, a crise ser desculpa para tanta incompetência, tanto dinheiro que gastaram mal gasto. Eu tenho uma casa pequena, e podia ter uma maior, podia ter feito um emprestimo quando acabei de pagar a minha casa, mas não fiz, porque o meu marido trabalhou 16 anos na Opel portugal e um dia só porque sim fechou portas em Portugal, e pensámos que se eles fecharam mais facilmente outras pequenas iriam abaixo.Não gastámos o dinheiro, não comprei carro topo de gama, comprei um usado renault laguna,enfim agora estou no desemprego, e o meu marido graças a Deus está a trabalhar mas ganha menos de metade do que ganhava, mas nada devo a ninguem, nem casa, nem carro e tenho as minhas poupanças.Por isso vivo tranquilamente, mas que me irritam muitas pessoas há minha volta, isso irritam.

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  2. Verdade verdadinha! Muitas pessoas queixam-se de barriga cheia...

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  3. Conheci casos desses no passado. Um passado em que os bancos permitiam empréstimos muito acima do necessário para comprar casa e que dava para viajar, comprar carros, rechear as casas. Hoje em dia não tanto. Conheço pessoas verdadeiramente em crise, que não tomaram opções arriscadas no seu tempo, tomaram as que podiam tomar, sem achar que algum dia o país ia ficar como ficou. No meu caso, que comprei casa há quase 6 anos, devo dizer-te que o fizemos sempre pensando na possibilidade de um de nós ficar desempregado e garantindo que o ordenado do outro poderia ser suficiente para os gastos fixos, isto porque durante muito tempo trabalhei a recibos verdes, com toda a instabilidade que os mesmos encerram. Por isso não comprámos a casa dos nossos sonhos, temos mobília do IKEA e um carro em segunda mão e uma mota também em segunda mão. Tivemos juízo, fomos ponderados. Lamento que outros não o tenham sido e lamento que hoje tantas pessoas se encontrem tão aflitas, sem saber como pagar as casas, os carros e os recheios das suas casas. Independentemente das razões que os levaram a estar como estão.

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  4. A minha avó chama a isso "mau governo". É gastar à bruta quando se tem e quando não se tem pede-se a gasta-se na mesma. Pessoas que sempre tiveram grandes vidas e que agora não se contentam com menos. Não tenho pena dessa gente. Depois à pessoas que sempre viveram em crise. Como por exemplo quem não conhece outra coisa que o ordenado mínimo e que lá se vão arranjando e assim continuam, umas vezes melhor, outras pior. Há vários tipos de crise e, tal como tu, acho mal que ponham tudo no mesmo saco.

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  5. Sempre houve pessoas que geriam menos bem o dinheiro, ou que viviam acima das suas possibilidades. Mas há dois factos inegáveis: um, a crise está aí, por toda a Europa, e não foi culpa do consumidor final; e dois, se os portugueses viviam acima das suas posses, talvez fosse por terem os mesmos preços, a mesma moeda, e ordenados muito abaixo da média europeia...como não haver crise? A Europa foi muito mal gerida. Tinha que dar nisto.

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  6. Concordo contigo. Se é verdade que muitas pessoas estão a passar por dificuldades reais, também é verdade que muitas que dizem passar necessidades não conhecem o verdadeiro sentido da expressão e apenas o confundem com o (prepara-te, momento margarida rebelo pinto) downsizing da lifestyle.

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  7. É verdade, o que é triste, mas é!
    Cada vez mais as pessoas pensam que as aparências conquistam e não o nosso interior, o nosso eu, e para se mostrar ao mundo necessitam de ter um carro novo, uma casa bem decorada, roupa boa e de marca e não ligam a gastos ou a meios de adquirir dinheiro (tais como créditos atrás de créditos na Cofidis e outras empresas da área).
    O que interessa atualmente é ter tudo e mais alguma coisa, mesmo que isso depois não traga comida para a mesa.
    As pessoas estão a começar a perder a consciência.

    Sinceramente, a resolução para esta crise que atravessamos, começa por nós. Começa na nossa consciência :)

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  8. Concordo plenamente contigo Raquel.. é muito triste, mas é verdade. conheço casos em que realmente as pessoas põe-se mesmo a jeito.. até me faz confusão, e no fundo revolta-me.. porque em vez de pagar o que já devem, ainda fazem mais créditos e dividas.. enfim.. como as coisas estão acho que as pessoas deviam mesmo aprender a gerir o orçamento familiar. beijinhos

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  9. Concordo. Apesar de saber que há muita gente que realmente sente na pele a crise, há muitos que a sentem porque gastaram o dinheiro mal gasto, pediram créditos para tudo e mais alguma coisa sem pensar se teriam dinheiro para os pagar (falo por exemplo de créditos para ir de férias).
    Cá por casa sempre me incutiram a máxima de não gastar acima das possiblidades: se não há dinheiro não se compra. Se não temos dinheiro para ir de férias não vamos (enquanto fizemos a nossa casa e devíamos dinheiro nunca fomos de férias e ainda foram uns bons anos), se não temos dinheiro para um topo de gama compramos um mais modesto, se não compramos um carro novo compramos em 2ª mão. Acho que tudo depende de se fazer uma boa ou má gestão.
    Os meus pais sempre me incutiram isso e acho que assim é que deve ser,

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  10. concordo com tudo o que aqui foi dito, mas tambem existem pessoas que tinham bons ordenados e que fizeram creditos, porque o ordenado assim o permitia e agora com o aumento do IRS e da taxa extraordinaria estão com a corda no pescoço....

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